O corpo voou pela janela. Mas o corpo não era corpo. Era alma despedaçada, que caiu devagar, bem lentamente, pedaço por pedaço. Não foi só um corpo que caiu. Foi a esperança de uma vida vivida, vívida por ser plena, por ser bálsamo, completa, cheia. Porém um pássaro distraído viu aquele corpo e tentou acompanhá-lo. Aquele ser de asas e penas não sabia que aquele companheiro carregava o sabor amargo do delírio, o revolver da tristeza. O pássaro não sabia que existem penas que voam e penas que sentenciam. O pássaro não sabia que aquele corpo não era pássaro como ele, que era homem, e que seu peso findaria sem nenhuma proteção. E ao ver que o chão era o destino do corpo, o pássaro refez sua trajetória e subiu e olhou e ao céu voou.
Mas não havia mal... Não havia uma maldade implícita naquele salto. A maldade não estava no vôo do homem. Estava, talvez, em sua fraqueza. Talvez. Porém a escolha do pássaro nos revela uma lição: Não nos enganemos! Toda queda pode ser acompanhada, todo mal pode ser sanado, toda dor pode ser superada, e todos iremos algum dia voar, sublimar a vergonha e chegaremos ao chão e aos ceús, aos céus. Iremos cavalgar as nuvens e olhar para baixo e perceber que voar também é escolha, é querência. E agora para aquele corpo que bradou em uma única direção... as asas foram alçadas e a chegada já se fez.
Segue. A vida segue. Os pássaros voam. Os corpos caem. As lágrimas escorrem. E ao final de tudo, tudo se vai ao chão. Percebem? Não há maldade, não há maldade, só há a busca pelo perdão. Homem do corpo que caiu, estás perdoado, pois sua alma, sua dor e seus amores não foram em vão.

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3 comentários:
Belo texto. Continue escrevendo assim, seus textos são uma viagem...
Obrigado. Mas quem é você, "anônimo"?
Besos.
Que lindo texto, como semprem, Vinícius.
Ao lê-lo me veio em mente tantas coisas vividas, tantos pensamentos atordoados. Naquela época achava que só o 'vôo pela janela' poderia fazer minha mente descansar. Mas (levando em consideração a minha crença), graças a Deus conheci, e fui obrigada a conhecer, pessoas maravilhosas, pessoas que me mostraram que tinham outras formas de minha mente descansar, por mais que temporariamente. =)
E hoje vivo com ela atormentada, calma, ao léu... Fazendo o possível pra meu corpo ter um outro final.
Beijos
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