sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Chão de asas

O corpo voou pela janela. Mas o corpo não era corpo. Era alma despedaçada, que caiu devagar, bem lentamente, pedaço por pedaço. Não foi só um corpo que caiu. Foi a esperança de uma vida vivida, vívida por ser plena, por ser bálsamo, completa, cheia. Porém um pássaro distraído viu aquele corpo e tentou acompanhá-lo. Aquele ser de asas e penas não sabia que aquele companheiro carregava o sabor amargo do delírio, o revolver da tristeza. O pássaro não sabia que existem penas que voam e penas que sentenciam. O pássaro não sabia que aquele corpo não era pássaro como ele, que era homem, e que seu peso findaria sem nenhuma proteção. E ao ver que o chão era o destino do corpo, o pássaro refez sua trajetória e subiu e olhou e ao céu voou.

Mas não havia mal... Não havia uma maldade implícita naquele salto. A maldade não estava no vôo do homem. Estava, talvez, em sua fraqueza. Talvez. Porém a escolha do pássaro nos revela uma lição: Não nos enganemos! Toda queda pode ser acompanhada, todo mal pode ser sanado, toda dor pode ser superada, e todos iremos algum dia voar, sublimar a vergonha e chegaremos ao chão e aos ceús, aos céus. Iremos cavalgar as nuvens e olhar para baixo e perceber que voar também é escolha, é querência. E agora para aquele corpo que bradou em uma única direção... as asas foram alçadas e a chegada já se fez.

Segue. A vida segue. Os pássaros voam. Os corpos caem. As lágrimas escorrem. E ao final de tudo, tudo se vai ao chão. Percebem? Não há maldade, não há maldade, só há a busca pelo perdão. Homem do corpo que caiu, estás perdoado, pois sua alma, sua dor e seus amores não foram em vão.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

3 comentários:

Anônimo disse...

Belo texto. Continue escrevendo assim, seus textos são uma viagem...

Vinícius Silva disse...

Obrigado. Mas quem é você, "anônimo"?

Besos.

Lara Cervasio disse...

Que lindo texto, como semprem, Vinícius.

Ao lê-lo me veio em mente tantas coisas vividas, tantos pensamentos atordoados. Naquela época achava que só o 'vôo pela janela' poderia fazer minha mente descansar. Mas (levando em consideração a minha crença), graças a Deus conheci, e fui obrigada a conhecer, pessoas maravilhosas, pessoas que me mostraram que tinham outras formas de minha mente descansar, por mais que temporariamente. =)

E hoje vivo com ela atormentada, calma, ao léu... Fazendo o possível pra meu corpo ter um outro final.

Beijos

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Baixada Fluminense, Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro.
Sou um amante das palavras, de todas elas. Também sou amante das pessoas, mas como "pessoas" também é uma palavra... Quem sou eu? Poeta, professor, cantador de chuveiro, apertador de sobrinho, bocejador de sono mal dormido, beijador de esposa, escrevinhador de bobagens, apaixonador de amigos, irritador de mãe, irritador de pai, fraquejador de medos e encorajador de desafios. Também sou cientista social, mestre em sociologia e doutorando em planejamento urbano e regional, mas isso é apenas um detalhe.

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